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Hava Netze Bemachol 50 anos

POR MÔNICA HAUSER

Não é uma tarefa fácil escrever sobre o Festival Hava Netze Bemachol. São tantos anos, tantas histórias e tantas pessoas que certamente esqueceremos de alguém (já pedimos desculpas de antemão!). Um evento que marcou a vida de muita gente e transformou a vida de outras tantas. Que juntou casais, reuniu amigos distantes e fez inúmeras amizades surgirem. Pioneiro em mais de uma categoria, o Fendi (como era carinhosamente chamado) está na memória afetiva de muitos e no calendário anual de outros tantos.

Vamos começar do começo? Era 1970 quando um grupo de jovens pediu, para o então presidente Izaac Nuzman, o teatro da Hebraica para a realização de um evento de final de ano dos movimentos juvenis. Ali nascia a sementinha do nosso festival. Em 1972 o evento ganhou uma nova proporção quando as apresentações passaram a ser competitivas. Com essa mudança surgiu a necessidade de um nome para o evento. Foi quando a então Diretora Rosete Rubin, que coordenou o evento por 11 anos, se inspirou na música composta por Shalom Banjo e Asaf Halevi (e famosa na voz de Rika Zarai) e batizou o evento de Hava Netze Bemachol – ou em português “vamos sair em danças”.

 

Após um ano sem o evento devido à Guerra do Yom Kipur em 1973, ele voltou à ativa no ano seguinte, mas dessa vez no Salão Nobre, com o total apoio do então presidente do clube Marcos Halfim. Com o nome decidido, faltava apenas a logomarca, o símbolo daquele que seria o famoso “Festival do Rio”. Ernesto Hakewitsch, um jovem apaixonado por grafismo e membro da diretoria de comunicação do clube, pegou para si essa missão e desenvolveu o tradicional casal azul baseado em um movimento de dança do grupo Karmon Dancers, um ícone da época. A partir daí nasce, oficialmente, o Festival Hava Netze Bemachol, sob a batuta dos movimentos juvenis, da OSURJ e da Hebraica Rio.

 

O festival cresceu e apareceu, muito pelo trabalho do então Diretor de Juventude Mauro Bersuc que conseguiu transformar um evento local em algo nacional, contatando grupos de fora do Rio de Janeiro para participarem. Nesse início o festival teve o apoio fundamental da Chevra Kadisha, que pagava o transporte de todos os grupos de outros estados. Foi quando, no final da década de 70, com o festival tendo virado uma mega produção, foi decidido que os movimentos juvenis e a OSURJ passariam oficialmente o bastão para a Hebraica Rio.

 

Em 1989 o festival ganha um irmão mais novo, o Atid (Futuro em hebraico), onde as atrações principais eram as leakot de crianças, o futuro da dança israeli e do judaísmo. Idealizado e organizado pela Maria Helena Wolff, então diretora do Hava Netze Bemachol, ele começou sendo realizado como um evento à parte, em outra data. Mas com o passar dos anos ganhou novas proporções e decidiu-se que ele faria parte do mesmo evento, dentro da programação do seu “irmão mais velho”. Desde então os domingos de manhã são dedicados às crianças, onde pais, tios, avós e irmãos ficam babando com os pequenos fazendo coreografias em cima do palco, com figurinos, maquiagem e penteados como gente grande.

 

Com o crescimento do festival, todas as entidades do Rio de Janeiro começaram a investir em grupos de dança folclórica israelense, transformando o Hava Netze como o maior evento da comunidade judaica carioca. Foi então decidido que era hora de ter um Diretor Artístico, que seria responsável por toda a parte dos shows, desde grupos convidados até a ordem de apresentação, passando por toda a parte de logística e organização. Não podemos deixar de citar nomes que já passaram por essa função e deixaram marcas fundamentais: Roberto Cohen, Roger Weiger, Stella Luzes, Mauro Botner, Sandra Libaber e André Schor, além de Guiora Kadmon e Andréa Cohan, shlichim que ajudaram a produzir o evento.

 

E o que dizer das vozes que marcaram as apresentações? Impossível o festival acontecer sem essas pessoas que deixaram sua marca registrada: de 1970 a meados de 1980 André Wandersman (Andrezão) junto com Clarita Paskin, Varda e Cecilia Nussenbaum; De meados de 1980 até final dos anos 1990 Carlos Szuch e Alberto Leo Jerusalmi e dos anos 2000 até 2016, Sergio Rosenboim. Também não podemos deixar de citar outras vozes que passaram pelo festival: André Mizrahi, Herry Rosenberg e Rosete Rubin.

 

Em todos os seus anos de existência, até hoje o Festival só deixou de acontecer três vezes: em 1973 por causa da guerra de Yom Kipur, em 1983 por causa do acidente com o ônibus da Chazit e mais recentemente em 2020 devido à pandemia de covid-19. Mas como a organização não se deu por vencida, foi criado o primeiro Festival.com, onde tivemos (re)apresentações de danças antigas de várias leakot de várias partes do mundo, competição de rikudei-am, harkadot virtuais pelo Zoom e uma linda homenagem ao coreógrafo Luiz Filipe Barbosa, falecido no mesmo ano.

 

Hoje o Hava Netze Bemachol está sob o comando de André Schor e Sergio Rosenboim, que coordenam desde Israel todos os detalhes do festival. O que o futuro reserva? Muitos e muitos anos de vida para esse evento histórico da comunidade judaica carioca e brasileira.